Como os exércitos digitais moldam nossa mente, nossa identidade e nossa consciência — e o que cada um de nós pode fazer para não ser recrutado
São onze da noite e o celular vibra mais uma vez. É o grupo da família, depois o do condomínio, depois um canal com milhões de inscritos anunciando que “o perigo é iminente”. Você não pretendia responder a nada. Meia hora depois, está discutindo com um primo que conhece desde criança, usando palavras que nunca tinham saído da sua boca.
Se a cena parece familiar, você não está sozinho. A impressão de que a internet nos deixa mais ansiosos, cansados e intolerantes deixou de ser palpite. O que vivemos vai além da tão comentada “polarização”. É uma engenharia do comportamento que mexe com algo mais íntimo: a noção de quem somos.
Para entender como uma ferramenta tão cotidiana transforma pessoas pacatas em combatentes, vale a pena uma viagem por três territórios: uma antiga história bíblica, as guerras do século XX e aquilo que a psicologia sabe sobre a formação da nossa identidade.
“Porque somos muitos”
A palavra demônio vem do grego daimon. Na origem, não designava nada maligno: era uma força interior, um impulso invisível que guiava o comportamento humano. Com o tempo, a tradição bíblica e o pensamento ocidental passaram a associá-la a algo corruptor — a perda do comando que cada pessoa tem sobre os próprios atos.
Nenhuma imagem traduz melhor esse processo do que o episódio do possesso de Gerasa, narrado no Evangelho de Marcos. Quando Jesus pergunta o nome do espírito que domina aquele homem, a resposta vem seca: “Meu nome é Legião, porque somos muitos” (Marcos 5:9).
A escolha da palavra não é casual. A legião romana era a máquina militar mais temida da Antiguidade: de 5 mil a 6 mil soldados que marchavam e agiam sob um comando único, sem rosto próprio. O homem de Gerasa já não fala por si. Fala por ele uma multidão.
A psicologia leu essa passagem com atenção. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung descreveu como impulsos inconscientes, quando não integrados, podem tomar conta da consciência. A psicologia social acrescentou o contexto do grupo: quem mergulha numa massa enfurecida abre mão do próprio nome, da própria história e da própria moral. Vira uma peça descartável de um exército sem rosto. Quem passa a falar não é mais a consciência daquela pessoa, e sim a Legião.
Uma receita antiga
Usar a mente da multidão como arma política não é invenção do Vale do Silício. A ideia foi descrita no fim do século XIX e aplicada em escala industrial no século XX.
Em 1895, o francês Gustave Le Bon publicou A Psicologia das Multidões. Ali, explicou que o ser humano, ao se juntar a um grupo inflamado, desce vários degraus na escala da civilização. Perde o senso crítico, ganha uma sensação de força invencível e passa a agir por contágio, quase hipnotizado.
Poucas décadas depois, Lênin e, mais tarde, Stalin perceberam que manter o poder exigia transformar a vida privada em dever político. Com propaganda maciça, criaram ligas juvenis como o Komsomol, comitês de bairro e patrulhas populares. O cidadão comum foi convocado a ser sentinela permanente, denunciando vizinhos e parentes em nome da revolução. A propaganda chegou a transformar em herói nacional um menino, Pavlik Morozov, por supostamente ter denunciado o próprio pai.
Na Alemanha dos anos 1930, Joseph Goebbels levou a manipulação ao auge. Pelo rádio, por comícios gigantescos e filmes doutrinários, convenceu a população de que o país vivia sob cerco mortal de inimigos internos e externos. Gente comum aceitou — e executou — atrocidades porque o Estado a convencera de que aquilo não era crueldade, mas sobrevivência e dever patriótico.
Em todos esses casos, a fórmula foi a mesma. Primeiro, plantar um medo existencial profundo. Depois, apontar um inimigo culpado por todo o mal. Por fim, oferecer um coletivo fardado onde o indivíduo encontra proteção — ao preço da própria liberdade moral.
A coluna e as máscaras
Para entender como essas técnicas nos atingem no dia a dia, ajuda conhecer o trabalho do psiquiatra americano Murray Bowen, criador da Teoria dos Sistemas Familiares. Para ele, nossa identidade nasce do equilíbrio entre duas forças.
A primeira é o que Bowen chamou de self sólido. É a coluna vertebral da personalidade, formada devagar, com reflexão, honestidade consigo mesmo e deveres cumpridos. Quem tem um self sólido sabe no que acredita e onde estão seus limites. Não precisa gritar para se impor. E não negocia seus princípios sob chantagem emocional, pressão dos amigos ou ameaça de exclusão.
A segunda é o pseudo-self, ou self adaptativo. É a camada flexível que todos usamos para conviver: as pequenas concessões, as opiniões de ocasião, a roupa escolhida para um evento, o tom polido no trabalho. O pseudo-self quer pertencer, quer ser aceito e prefere evitar conflitos.
Nada disso é defeito. Numa vida saudável, a pessoa usa o pseudo-self de forma consciente, para ser educada e funcional, enquanto o self sólido continua firme por baixo. O problema começa quando as máscaras se multiplicam e a coluna enfraquece.
Bowen imaginou uma escala de 0 a 100 para medir o que chamou de diferenciação do self: a capacidade de continuar pensando com a própria cabeça quando a emoção do grupo aperta. Quem está no alto da escala consegue ficar perto dos outros sem se dissolver neles. Quem está embaixo vive em fusão: sente o que o grupo sente e pensa o que o grupo pensa. Para Bowen, a maioria de nós fica bem abaixo do meio.
Há duas maneiras de se perder nesse caminho. A primeira é perder contato com o self sólido: os valores continuam lá, mas a pessoa já não os consulta. A segunda é mais grave. O pseudo-self ocupa o lugar do self sólido, e a máscara emprestada pelo grupo passa a ser tratada como convicção pessoal.
Bowen observava que o pseudo-self é negociável. Pode ser trocado, emprestado, tomado à força pela pressão dos outros. Quando ele vira o centro da personalidade, a identidade de alguém passa a pertencer a quem grita mais alto.
Mil máscaras no bolso
Há poucas décadas, o mundo social de uma pessoa cabia em poucos lugares: a casa, o trabalho, a igreja, o clube do bairro. As fronteiras eram físicas e claras. Ao voltar para casa, a gente tirava as máscaras e descansava.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman deu nome a essa mudança. Em Modernidade Líquida, de 2000, descreveu um mundo em que nada mantém a forma por muito tempo: empregos, amores, comunidades. Nele, a identidade deixa de ser herança e vira tarefa sem fim. Precisa ser montada, exibida e refeita o tempo todo.
Duas décadas depois, o futurista americano Jamais Cascio cunhou outra sigla para o mesmo desconforto: o mundo BANI, do inglês brittle, anxious, nonlinear, incomprehensible — frágil, ansioso, não linear e incompreensível. E o smartphone derrubou de vez as fronteiras que ainda restavam.
No mesmo aparelho, a mesma pessoa participa do grupo da família, do condomínio, dos pais da escola, do time de futebol, do trabalho e de comunidades ideológicas. Cada grupo tem seu código moral, suas piadas e suas reações esperadas. Ao longo do dia, trocamos de máscara a cada poucos segundos, sem sair do sofá.
Quem tem um self sólido aguenta o malabarismo. Quem não tem — adolescentes em formação, mas também muitos adultos — se esgota. A pessoa começa a se sentir uma fraude em todo lugar e perde a noção de quem realmente é. Aí surge a tentação perigosa: encontrar uma tribo forte que diga exatamente o que pensar, como falar e quem odiar.
Freud já havia pressentido esse perigo. Em O Mal-Estar na Civilização, de 1930, escreveu que a vida em sociedade cobra um preço: para conviver, cada um precisa conter a própria agressividade, e essa renúncia gera uma insatisfação permanente. A tribo digital oferece um alívio perverso para esse mal-estar. Libera a agressão contida e ainda garante que odiar o inimigo é virtude.
Soldados de bolso
É nesse terreno de fragilidade que florescem os exércitos digitais. O exemplo mais visível da eleição de 2026 foi o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, administrado pelo deputado federal André Janones. Criado em abril, tinha cerca de 4 milhões de inscritos em 12 de outubro. Onze dias depois, a dois dias do segundo turno, passou de 10 milhões e virou o segundo maior canal da plataforma no país. Nos vídeos, os seguidores eram chamados de “soldados”. Do outro lado da disputa, apoiadores do candidato adversário se organizavam na “Tropa do Flávio”.
O que torna esse fenômeno novo não é a ideologia de um lado ou de outro. É o método de captura do comportamento, que funciona igualmente bem para qualquer bandeira. Ele se apoia em três pilares.
O medo como combustível. Nenhum exército se sustenta sem pânico. Dia após dia, chegam mensagens de alta carga dramática: “o perigo é iminente”, “se você não agir agora, tudo estará perdido”. Isso aciona o sistema de luta ou fuga, comandado pela amígdala cerebral. Em estado de alarme crônico, o córtex pré-frontal — a região que pesa as consequências e faz o julgamento moral — perde a voz. A pessoa passa a obedecer antes de pensar.
A missão do dia. O seguidor deixa de ser espectador e ganha tarefas: subir uma hashtag, comentar em massa no perfil de um jornalista, “cancelar” um adversário, encaminhar vídeos editados aos parentes. Cada missão cumprida é recompensada com curtidas, aprovação da tribo e a sensação de estar fazendo a diferença. É o velho mecanismo do reforço, estudado pelos psicólogos há um século: ação premiada tende a se repetir.
A máscara que gruda. Aos poucos, a pessoa adota a cartilha do canal como se fosse sua personalidade. Usa os mesmos termos, as mesmas ofensas prontas, o mesmo tom exaltado no almoço de domingo e na reunião de trabalho. Já não fala a partir da própria vida. Fala pela boca da Legião.
O psicólogo americano Irving Janis, da Universidade Yale, deu nome a esse estado em 1972: groupthink, o pensamento de grupo. Estudando fiascos como a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, ele mostrou que gente muito inteligente toma decisões desastrosas quando o desejo de unanimidade fala mais alto que o juízo.
Janis listou oito sintomas. Entre eles estão a ilusão de invulnerabilidade, a fé inquestionável na moral do próprio grupo, a caricatura do adversário, a autocensura e a ilusão de que todos concordam. Há até os “guardiões da mente”, que barram qualquer informação capaz de abalar a certeza coletiva. Janis estudou gabinetes com uma dúzia de pessoas. Num canal com milhões de inscritos, o mesmo mecanismo opera em escala industrial.
Semanas de transe
Para quem passa dias imerso nesse estado de prontidão, a conta chega rápido — no corpo, na consciência e nos afetos.
O primeiro sinal é a hipervigilância. Com o celular vibrando dezenas de vezes por hora com alertas de urgência máxima, o sistema nervoso não consegue repousar. O sono se fragmenta, o estômago trava, o hormônio do estresse, o cortisol, vai lá em cima.
Depois vem algo mais sutil: o hábito de faltar com a verdade. Em 2016, pesquisadores do University College London publicaram na revista Nature Neuroscience um estudo que examinou o cérebro de voluntários enquanto eles tinham a chance de mentir para levar vantagem. A amígdala reagia forte na primeira mentira e cada vez menos nas seguintes — enquanto as mentiras ficavam maiores. É a ladeira escorregadia em versão biológica. Quem repassa informações distorcidas repetindo que “os fins justificam os meios” corre o risco de que o alarme moral simplesmente pare de tocar.
Por fim, os laços se rompem. Em clima de guerra, o amigo de décadas ou o irmão de sangue que pensa diferente vira traidor, “agente do mal”. O pensador francês René Girard descreveu esse mecanismo como rivalidade mimética: quanto mais parecidos e próximos somos, mais qualquer divergência é sentida como ofensa mortal.
O professor americano Luke Burgis, no livro Wanting (“Querer”, em tradução livre), de 2021, mostra como as redes sociais turbinaram esse mecanismo. Girard ensinava que aprendemos a desejar imitando os desejos de nossos modelos. Na tela, os modelos se contam aos milhões, e o desejo passa a ser copiado em tempo real. Burgis separa os desejos rasos, contagiosos e passageiros, dos desejos densos, formados ao longo da vida. Os primeiros correm de celular em celular. Os segundos são justamente a matéria de que é feito o self sólido.
Quando a máscara vira rosto
Para Bowen, os sintomas aparecem quando a ansiedade ultrapassa o que a pessoa — ou a família, ou o grupo — consegue suportar. Quanto mais baixa a diferenciação, menor esse limite. E o estrago costuma surgir em três frentes: no corpo, nas emoções e no comportamento social.
No corpo, a ansiedade crônica se instala como insônia, tensão muscular, problemas digestivos, pressão alta. O psiquiatra Michael Kerr, principal continuador de Bowen, sustenta que muitas doenças diferentes compartilham os mesmos processos fisiológicos ligados ao estresse prolongado.
Nas emoções, aparece o quadro conhecido dos consultórios: crises de ansiedade, pânico, depressão, irritabilidade constante. O psicanalista inglês Donald Winnicott, que estudou o que chamou de falso self, notou que quem vive atrás de uma máscara costuma carregar uma sensação de vazio e de irrealidade, como se a própria vida não lhe pertencesse.
No comportamento, surgem a dependência — do celular, do álcool, da próxima dose de indignação —, a impulsividade e a agressão. E entram em cena dois mecanismos que Bowen descreveu nas famílias e que hoje se veem nos grupos de mensagem. O primeiro é a triangulação: quando a tensão entre duas pessoas fica insuportável, elas a descarregam num terceiro. Nada une tanto quanto um inimigo comum. O segundo é o rompimento emocional: cortar relações com pais, irmãos e amigos para não ter de conviver com a diferença.
Nada disso autoriza diagnósticos à distância, mas o mapa ajuda. Quem perdeu contato com o self sólido sente ansiedade e cansaço, e ainda pode encontrar o caminho de volta. Quem trocou o self sólido pelo pseudo-self do grupo corre um risco maior: deixar de sentir qualquer coisa que a tribo não tenha mandado sentir.
Depois da batalha
E se esses exércitos deixarem de ser episódios de campanha e virarem o modo normal de fazer política? Os efeitos sobre a mente coletiva tendem a ser profundos e duradouros.
O primeiro é a ressaca. Depois da euforia do combate, vem o vazio. Os antigos monges tinham um nome para esse tédio da alma: acédia. A pessoa conclui que “tudo é podre”, perde a fé na verdade e desiste dos valores que um dia a moveram.
O segundo é um mal-estar difícil de nomear, nascido da incoerência. Viver muito tempo uma vida que não é a sua cobra um preço. Cedo ou tarde, a mente percebe o abismo entre o discurso virtuoso do grupo e a baixeza das ações que ele pede — e entra em curto.
O terceiro é a erosão do self sólido. Como um músculo sem uso, a bússola moral atrofia. A pessoa perde a capacidade de decidir o que é certo sem o aval do coletivo e fica à mercê do próximo demagogo que aparecer.
O quarto é uma paranoia que transborda das telas. Quem passa meses em mentalidade de trincheira passa a desconfiar também das pessoas de carne e osso. O resultado é mais isolamento e mais desamparo.
Bowen deu um nome a isso: regressão social. Assim como uma família em crise, uma sociedade inteira pode perder diferenciação quando vive sob ansiedade crônica. Ela passa a decidir pelo sentimento, não pela razão. Em vez de soluções, procura culpados.
Reprogramar um ser humano, portanto, não exige microchips nem cirurgias. Basta uma dose contínua de pânico, uma tribo acolhedora e uma tela acesa no bolso. Quando o pseudo-self ocupa a vida inteira de alguém, essa pessoa deixa de existir como sujeito moral. Vira um número num canal, marchando rumo ao precipício certa de que está salvando o mundo.
Expulsar a Legião
Não se vence um demônio criando outro. Fundar um exército digital do lado oposto só acelera a destruição mútua: é contágio combatendo contágio. A libertação começa no ponto que Bowen chamava de posição do eu — o lugar de onde alguém diz, com calma e sem pedir licença: “Isto é o que eu penso. Isto é o que eu não farei.” Chegar lá exige três rupturas.
Desligue o alarme. Silencie os grupos que vivem de urgência e devolva a atenção ao que é concreto: o trabalho, o corpo, a casa, as pessoas de carne e osso. O medo é o combustível da Legião. Sem ele, ela perde a voz.
Aceite ser chamado de traidor. Quem se recusa a marchar será chamado de “isentão”, “morno”, “inimigo”. É o preço de manter a própria consciência — e é barato perto do preço de vendê-la. Quem tem um self sólido não precisa do aplauso da tribo para saber quem é.
Retome a sua voz. Não repasse mentiras, nem as que favorecem o seu lado. Não atire a pedra, mesmo quando a multidão inteira atira. E saia dos canais que lucram, em dinheiro ou em poder, com o seu pânico.
A história de Gerasa não termina com o homem possuído. Termina com a expulsão. Os espíritos deixam o homem e entram numa vara de porcos — cerca de 2 mil, diz o Evangelho —, que se precipita encosta abaixo e se afoga no mar. A imagem não poderia ser mais atual: é a manada, não o indivíduo, que corre para o abismo.
O que vem depois é ainda mais revelador. Os moradores da região encontram o homem sentado, vestido e em perfeito juízo. Em vez de festejar, sentem medo e pedem a Jesus que vá embora. Toda multidão estranha quem se recusa a correr com ela.
O homem curado quer seguir Jesus, mas recebe outra missão: “Vai para tua casa, para os teus.” A cura não é trocar de exército. É voltar para casa, para a família, para a vida real — e reaprender a dizer o próprio nome.
A Legião é muitos. Você é um só. E é exatamente aí que mora a sua força.
Fontes
- Exército do Lula chega a 10 milhões de seguidores — Diario de Pernambuco
- Exército do Lula supera 4 milhões no WhatsApp — Congresso em Foco
- Canal Exército do Lula supera 7,1 milhões — Congresso em Foco
- Garrett et al., The brain adapts to dishonesty, Nature Neuroscience (2016)
- Jamais Cascio, BANI 2025 — an Overview
- Bowen Theory Academy — New Developments and Applications of Bowen Theory
- Britannica — Groupthink (Irving Janis)
- Publishers Weekly — Wanting, de Luke Burgis
- Bowen, Murray. Family Therapy in Clinical Practice (1978)
- Le Bon, Gustave. Psicologia das Multidões (1895)
- Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930)
- Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida (2000)
- Janis, Irving. Victims of Groupthink (1972)
- Burgis, Luke. Wanting: The Power of Mimetic Desire in Everyday Life (2021)
- Evangelho de Marcos, capítulo 5